dez 222013
 
Antonio Gomes e os filhos Rodrigo (à esquerda) e Antonio (ao centro), do Bar Urca, mostram o termo assinado com o MP | Custódio Coimbra / O Globo

Antonio Gomes e os filhos Rodrigo (à esquerda) e Antonio (ao centro), do Bar Urca, mostram o termo assinado com o MP | Custódio Coimbra / O Globo

Volume de conversas de clientes em bares e restaurantes extrapola limite considerado aceitável pela ABNT

Estabelecimentos criam salões tratados acusticamente

Famoso por reunir os clientes numa mureta à beira da Baía de Guanabara, num dos bairros mais tranquilos do Rio, o Bar Urca teve de se acostumar, ao longo dos anos, a lidar com o que para uns é extroversão e para outros pode ser chamado de falta de educação. Presente no bairro desde a década de 70, o bar chegou a criar, nos anos 90, uma lista de dez mandamentos, entre eles um pedindo aos frequentadores que mantivessem as conversas dentro de um determinado padrão, sem gritarias, gargalhadas e palavrões. Quase 20 anos depois, Armando Gomes, filho do criador da lista, diz que continua tentando chamar a atenção dos clientes para as regras de boa convivência, que parecem virar espuma nos bares e restaurantes da cidade:

— Em geral, eles são barulhentos, sim. Mas têm um álibi: o álcool ajuda a elevar o volume. Mas esse é o espírito.

O problema é que esse espírito anda muito barulhento. Manter uma conversa numa mesa, especialmente nos horários de pico, vira uma prova de esforço e concentração. A convite do GLOBO, Lourdes Zanino, pesquisadora da Coppe/UFRJ especializada em conforto ambiental, visitou alguns restaurantes e bares na noite de quinta-feira. Com um decibelímetro, ela mostrou que a barulheira é onipresente e desafia até os investimentos em tratamento acústico.

Lourdes, que já trabalhou no planejamento acústico de bares, observa que há casas que usam e abusam de revestimentos como metal, mármore, vidros e espelhos — que, ao contrário de diminuir, aumentam o nível de ruído, pois reverberam o som.

Barulhento como aeroporto

Ela diz que, mesmo em casas preocupadas com o conforto, o volume dispara de acordo com o público. No Belmonte da Rua Dias Ferreira, no Leblon, por exemplo, onde o teto tem tratamento acústico e as janelas abertas deveriam ajudar a dispersar o som, foram aferidos entre 85 e 87 decibéis. Muito acima do nível aceitável — na casa dos 50 —, segundo norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Para se ter uma ideia, o ruído no salão, onde mal se ouve o que fala uma pessoa ao lado, é o mesmo do pátio do Aeroporto Internacional Tom Jobim, de acordo com tabela da Sociedade Brasileira de Otologia. A arquiteta explica que o ruído acima do aceitável é considerado um desconforto, sem necessariamente implicar risco de dano à saúde.

Em outros restaurantes do mesmo bairro, como o Zuca, também na Rua Dias Ferreira, e o recém-inaugurado Rapadura, na Rua Conde Bernadote, o nível de decibéis diminui, variando entre 70 e 75. Nesses dois últimos casos, a proposta dos empresários é não incentivar o barulho. Mesmo assim, o volume das conversas continua alto, como comprova o decibelímetro.

Empresários optam por projetos

Miguel Cury, dono do Rapadura e fundador do Botequim Informal, diz que o nível de barulho nos salões depende muito do público. E que, por isso, a proposta dos restaurantes pode contribuir para o conforto acústico nos salões:

— O jovem é mais barulhento. O público do Rapadura, por exemplo, faz menos barulho que o do Botequim informal. Mas não há como controlar isso. Em dias em que há jogo de futebol, o volume é alto no Rapadura e no Botequim. E a bebida realmente aumenta o volume.

Para o empresário Pedro Delamare, presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio (SindRio), o problema é cultural. Ele reconhece que a preocupação com o conforto acústico não é uma prioridade para boa parte dos empresários, mas diz que o comportamento do carioca é determinante para a barulheira:

— O carioca tem um comportamento extrovertido e leva isso para dentro de bares e restaurantes. E, quando os salões não estão preparados acusticamente, vira um problema. Em certos bares, você até se retrai ao falar, tamanho é o barulho. Há quem se incomode com isso, mas são poucos os que reclamam. É uma questão cultural. Na França, o incômodo é muito forte. Já na Itália, praticamente não existe. E o carioca é muito parecido com o italiano. Mas, claro, os empresários precisam ficar atentos a isso.

Acordo com o MP

Armando Gomes, do Bar Urca, diz estar atento. O salão da casa é tratado acusticamente para que os ruídos não incomodem nem vizinhos nem clientes. Ele conta que está refazendo os cartazes instalados ao lado do balcão — que serve os clientes que ficam na rua —, pedindo às pessoas que se conscientizem não apenas sobre o barulho, como o lixo e o estacionamento irregular:

— Em 2008, nos comprometemos com o Ministério Público, através de um termo de ajustamento de conduta, a manter o barulho dentro do limite legal. Mas a freguesia é muito variada, e isso se reflete no comportamento. Recebemos de turistas a militares, passando por executivos e juízes de futebol. Não pedimos nada além do que dita a boa educação.

Fonte: O GLOBO por NATANAEL DAMASCENO.

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